Brasil: O curioso caso do país sem direita
A história política do nosso país é, afinal, confusa além da conta. Curiosamente, o único partido com ideias liberais em seu sentido mais puro foi o Partido Liberal vigente nos tempos do Império, os conhecidos luzias. Posteriormente, o máximo que tivemos foi a UDN, que, pelo menos em âmbitos econômicos, era realmente liberal.
Durante a Era Vargas, vivemos o apogeu do estatismo à la fascismo de Getúlio, inclusive com a CLT sendo sua cópia da Carta del Lavoro, ainda mais inchada e regulatória. Com o advento da instauração dos militares no poder em 1964, em prol da defesa perante a "ameaça comunista", o que curiosamente os militares foram muito mais estatizantes e keynesianos que Vargas e Jango somados. O Regime Militar foi o último prego no caixão de uma embrionária direita brasileira. Os militares nunca foram de direita, nem liberais, nem conservadores; o único elemento "direitista" em seu modelo foi o anticomunismo. Na prática, foram positivistas tecnocráticos e corporativistas burocráticos, incharam a máquina em níveis estratosféricos; Geisel teve recorde de criação de estatais, algo a nível de estatização e isolacionismo de um bolchevique.
Em 1988, a nossa culta elite política aposta em uma paternalista e utópica Carta Magna; não foi escrita pelo Sarney graduado em Direito, mas pela sua faceta de poeta da ABL. E que, se fosse feita em 1989, seria totalmente diferente, pois ali, com a queda do Muro de Berlim, urgia ao mundo a mensagem de que o modelo centralizado era decadente; e, infelizmente, foi o que adotamos. A nossa Constituição não segue nem o pleno modo de estrutura lógica de leis; usa-se de pensamento metonímico, definindo o fim como se fosse um meio, um juspositivismo mastodôntico que tornou o monstro estatal em uma obesa Hidra.
Durante as décadas de 1990, 2000 e a primeira metade da década de 2010, tivemos o semibipartidarismo entre PT e PSDB. Uma disputa entre quem era mais assistencialista e paternalista; os chamados pela esquerda de "neoliberais selvagens" nem liberais eram, mas, sim, ferrenhos defensores de uma social-democracia austera, do Estado de bem-estar social e do mínimo possível de responsabilidade fiscal. O PSDB, durante a década de 1990, em suas privatizações que a oposição chamara de "entreguismo", o sociólogo tucano privatizou estatais defasadas e apenas realocou os funcionários dentro do aparato burocrático. Conclui-se que FHC não reduziu um milímetro do poder estatal, só modernizou o funcionamento para ter o mínimo de austeridade nas contas da União.
A disputa entre petismo e tucanos era entre tons de esquerda: o Partido dos Trabalhadores era a clássica esquerda latina que aposta em gastos, nas soluções miraculosas e na pajelança. Já o PSDB era a centro-esquerda à la europeia, que sabia usar garfo e faca e tinha a ciência da escassez de recursos e, portanto, da necessidade de os gerir com cautela; de resto, eram praticamente idênticos. Como a régua política brasileira foi tão puxada à esquerda, qualquer modelo que gaste menos ou simplesmente não aumente ainda mais o Leviatã estatal já é, por tabela, taxado hebdomadariamente na imprensa como "direita" ou "neoliberal". E, mesmo assim, o PSDB teve a capacidade de ser o mais próximo de uma possível direita que o Brasil vislumbrou ter na Sexta República; mas que, por falta de vontade de assumir o manto, acabou por implodir perante a nova onda populista que viria.
Após a queda do tucanato, surge a figura de Jair Bolsonaro; o mesmo também não é um direitista, mas um político centrônico, refém do presidencialismo de coalizão e de algum partido de aluguel, com suas mãos atadas pelas correntes do Centrão. Sua ideologia de governo foi o que impregnou há mais de um século a classe militar brasileira, ou seja, o velho positivismo. Ademais, aliou-se de sua mentalidade policial de law and order e uma retórica de mera bravata conservadora. Todavia, em sua gestão, de liberal só tivemos Paulo Guedes que, cerceado por interesses populistas e fisiológicos de outrem, acabou por injetar dinheiro na economia, tal qual um keynesiano.
Portanto, podemos concluir que o Brasil é um país que é órfão de uma direita politicamente organizada há décadas, e as poucas que tivemos foram sumariamente sodomizadas ainda em estágio de desenvolvimento.
por Ryan Correia Mainart
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