Inegavelmente, o Iluminismo foi um marco em nossa história civilizacional recente, desde sua concepção e auge nos séculos XVII e XVIII até os dias correntes. Fato é que mudou a mentalidade comum norteadora da nossa sociedade, sendo sua maior falha a inserção do materialismo como status quo, o que não necessariamente se pode afirmar intencionalidade para com isso. Antes de tudo, precisamos resgatar a verdadeira definição do conceito que hoje chamamos de ciência. A ciência é, indubitavelmente, uma ferramenta brilhante para analisar-se com rigor lógico-matemático e prático aquilo que se pode mensurar; voltando às raízes da filosofia da ciência com Francis Bacon e Karl Popper, podemos compreender este fenômeno como uma série de premissas que sustentam um método que, por aproximação, tenta compreender aquilo que for cabível em seu escopo, meios de medição e falseabilidade. Não necessariamente afirma que as premissas estão corretas e nem que aquilo é um fato determinado de forma inerrável, mas, sim, que, dentro das premissas mais críveis tidas até o presente momento e acerca do que pode ser empiricamente testado partindo delas, é uma definição que supra momentaneamente, até que caduque ou não por futuras refutações da mesma.
De antemão, ressalto que a culpa não é por completa do Iluminismo, mas também do pensamento que impregnou a visão filosófica moderna e contemporânea em seus expoentes mais materialistas. Dito isto, o problema do materialismo que expus se amplifica com o cientificismo. O que é o cientificismo? Ora, é tratar o método científico como a Verdade absoluta e única fonte de onde o saber humano se oriunda, algo que não é cabível nem mesmo em sua própria definição. A problemática atual, em que isto e outras matrizes iluministas, inclusive políticas, se arraigaram no consciente e inconsciente coletivo de forma a obnubilar por completo uma visão ampla da realidade, prendendo-se ao "senso comum" - diga-se de passagem, hoje totalmente torpe em inúmeros aspectos -, acabou por se tornar, ironicamente, uma espécie de mitopoese vivida arraigada na carne e mente destes de nosso tempo. Pregaram tanto uma visão materialista que superasse as "falhas" da religião, que criaram uma doutrina nestas lacunas. O Estado se tornou a faceta do Pai celeste onipotente: é a ele que se recorre em quaisquer problemas, é a quem devemos obedecer, a deidade provedora, a crença de esperança renovada periodicamente e da mudança através de sua graça, uma entidade onipotente e onipresente que milagrosamente melhorará nossas vidas, mesmo com a inércia do indivíduo. Vemos isso claramente na organização da fenomenologia política atual, que é a nova religião, um panteísmo em que várias seitas competem entre si, cada uma venerando um líder ou linha ideológica que será o redentor da nação e a salvará do líder maligno da seita concorrente. Se a política ocupou a necessidade onipotente e onipresente de um deus, a Ciência ocupou a "onisciência", como expliquei antes sobre o crasso erro do cientificismo. E, paralelamente, as crenças religiosas se tornam o ente maligno deste maniqueísmo, as velhas instituições que querem "obnubilar a Verdade", contestar a "onipotência do povo" (Estado) e trazer de volta "institutos maquiavélicos e reacionários".
Obviamente, os costumes e noções basais são afetados e distorcidos; o hedonismo toma papel sacrossanto - seja através do consumismo desenfreado, de noções culturais das mais vãs e lascivas, da desconexão com o imanente-transcendente e tantos outros fenômenos - e a libertinagem se torna sinônimo de "despertar" para a era que superou as crenças, ou melhor, as matou, como diria o alemão Friedrich Nietzsche em sua ovacionada e universalmente conhecida citação, que se aplica muito bem aqui, já que a humanidade, sob as premissas atuais, se vê como tendo superado a necessidade de Deus, mesmo que na prática tenha criado um modelo de estrutura social que age exatamente nas lacunas de onde Ele estaria.
Toda essa colcha de retalhos de hipérboles do factível e real - como o caso da ciência elevada ao cientificismo - impregnou-se em nossas mentes através de inúmeros símbolos visuais, filológicos, psicológicos e filosóficos dos signos usados nestas instituições e conceitos que moldam o modernismo, o que chamo de pós-iluminismo. Um ponto venal disto é a linguagem; os aspectos filológicos são essenciais. Ludwig Wittgenstein, em um raro momento de lucidez, afirmou precisamente que: "Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo". E é exatamente isto o que causou o boom materialista de matrizes precisamente anglo-saxãs como polo expoente. Tomemos a língua inglesa como exemplo: ela é belíssima, mas extremamente pobre em seu vocabulário e extirpa a compreensão mais profunda do metafísico; com dois simples exemplos notamos isso. Primeiramente, no termo matter: seja do verbo it matters, que significa importar, seja com o significado do termo matéria, no sentido do composto material. Ou seja, há uma relação inconsciente entre importância e materialidade; induz à crença de que tudo que é crível deve ter como condição sine qua non forma material. E a segunda, e pior de todas, é o verbo to be, que significa tanto ser quanto estar. Veja que se perde a noção de distinguir entre dois fenômenos completamente diferentes: o verbo estar, que é transitório e efêmero, que é acerca do estado; e o verbo ser, que é permanente e eterno, que é acerca da essência. Isso tanto é um combustível para a crise identitária, o conhecido problema identitário atual nestas regiões - por não ter a base filológica para diferir que eu não necessariamente sou aquele estado no qual estou -, como também é o ácido que corrói e torna mais difícil a concepção imaterial para este vocabulário; e o mesmo problema está presente no alemão.
A partir desta óptica, podemos sumariamente destruir a falácia de que países com alto IDH tendem a ser ateístas e mostrar que a barreira da linguagem é infinitamente mais influente neste ponto. Peguemos o máximo do welfare state de alto IDH: a Europa. Nota-se que os países de matriz linguística anglo-saxã de origens ou utilitarismo maior são justamente aqueles com maior taxa dessa visão ateísta. Enquanto isso, os países com línguas filhas do Latim, como é o caso da Itália, Portugal e Espanha - que, a propósito, gozam das mesmas condições de qualidade de vida -, são esmagadoramente religiosos. Ressalto que não devemos criar teorias conspiratórias de que um grupo maligno orquestrou uma trama para que essas estruturas basais fossem corrompidas; eu vejo a situação como um infeliz erro de percurso da humanidade, tal qual tantos outros que tivemos.
Por fim, podemos, ao observar panoramicamente, ver em quais partes se instalaram as máculas de nossos tempos e não ceder ao barulho causado por uma força motriz que implode bases de nossa sociedade; e, dessa forma, seguirmos em busca do bem, do belo e, principalmente, da Verdade.
por Ryan C. Mainart
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