República Dominicana: Do ferro e fogo trujillista ao frescor técnico caribenho
A América Latina da metade do século passado foi, indubitavelmente, um verdadeiro caos generalizado: ditaduras e golpes em cada canto, caudilhos viciados no poder, um caos sem precedentes. Mas, quando focalizamos nossa visão especificamente no Caribe, algo é perceptível entre a terra arrasada do socialismo cubano e o narco-estado absolutamente libanizado, portador de um IDH serra-leonino, que é o Haiti. Há, ali ao lado, a República Dominicana, erigida sob a honra do nome de São Domingos de Gusmão, o frade fundador da ordem dominicana aprovada pelo Papa Honório III em 1216.
A priori, vamos fazer um trajeto acerca da fascinante história recente dessas terras. Após 31 anos da sangrenta ditadura de Rafael Trujillo e o retorno democrático, surgem duas figuras que marcam o século XX dominicano de forma estrondosa. O primeiro deles é Juan Bosch, fundador do movimento esquerdista PRD (Partido Revolucionário Dominicano), que governou brevemente antes de ser deposto em 1963. Bosch era profundamente estatizante e um nacionalista progressista; queria uma revolução democrática e gradual, quase um socialista fabiano - um idealista por natureza, mas, sem dúvidas, um grande intelectual. Após sua deposição, começam os famosos "12 anos de Balaguer" (1966-1978). Joaquín Balaguer é, inegavelmente, a figura mais crucial de toda a política dominicana: o caudilho aluno de Trujillo e o mais brilhante gigante da intelectualidade dominicana, além de ser o maior exemplo de um líder maquiavélico - no puro sentido estratégico - que a América Latina já teve sobre seu solo.
Balaguer, membro do PRSC (Partido Reformista Social Cristiano), foi ideologicamente peculiar. Um autocrata, consensualmente sabido, com um grande fetiche por concreto - tal qual o conhecido brasileiro Paulo Salim Maluf ou o argentino Carlos Menem -, nesse sentido, Balaguer é quase ontológico, um mito popular de fundação de toda a infraestrutura. Outro ponto central de sua cosmovisão era um liberalismo econômico peculiar: apesar de liberal na economia, tudo era centralizado no poder dele. O próprio dizia, segundo suas próprias palavras, que "não havia corrupção em seu governo", pois "a corrupção parava na porta do seu escritório". Balaguer teve um legado divisivo, com muitos acertos e criando um modelo bem funcional, mas com o custo das perseguições aos esquerdistas e da sua perpetuação. Já sua faceta de gênio literário foi profundamente marcada por obras como Historia de la literatura dominicana, Los Carpinteros e a quase autobiográfica Memorias de un Cortesano en la Era de Trujillo, sendo a sua obra de análise da história literária usada como referência primordial escolar por anos.
Com o fim dos doze primeiros anos de Balaguer, os dominicanos começam a vivenciar um período que eu particularmente nomeio "Pseudo-democracia de Três Frentes", formato este que perdurou até 1996. Em suma, era um tripartidarismo na prática, onde os já mencionados PRSC e PRD, junto ao recém-fundado PLD (Partido de la Liberación Dominicana) - fundado por Bosch após desentendimentos internos no PRD -, formam esta esquerda mais moderada e intelectualizada. Sendo assim, a maioria brutal dos pleitos foi entre Bosch, Balaguer e o rosto das massas e mazelas sociais: José Francisco Peña Gómez, o novo rosto do PRD, negro de raízes haitianas e prefeito de Santo Domingo. Durante esta era tripolar, Balaguer, já idoso e completamente cego pelo glaucoma, chegou a governar novamente de 1986 até 1996, tendo grande apoio de sua irmã Emma Balaguer, que ficou conhecida como "os olhos de Balaguer".
As eleições de 1996 foram, sem dúvidas, as que definiram a democracia dominicana atual. Pela primeira vez Balaguer não disputava; seu candidato era Jacinto Peynado que, pelo fraco desempenho, ficou em terceiro lugar sem alcançar o segundo turno. Pela primeira vez, a disputa seria do PLD, à época com o ainda jovem Leonel Fernández, contra o PRD de Peña Gómez. E Balaguer costurou, na minha óptica, o seu maior feito e legado, com um único movimento preciso, como o grande enxadrista que era: ele apoiou o PLD de Bosch e fez uma dura campanha racista contra Peña Gómez, assegurando a vitória de Leonel no segundo turno. Essa medida de Balaguer pode, à primeira vista, parecer pífia e politicagem tradicional, mas foi um verdadeiro terremoto nas placas tectônicas da política. Movendo a janela de Overton para a direita, o PLD acabou ficando extremamente pragmático, liberal na economia e, embora progressista, não ousou tocar em tais pautas, já que os dominicanos são naturalmente conservadores em sua maioria. Em coalizões com apoio do PRSC, governou em três mandatos de Leonel e, futuramente, dois de Danilo Medina. O PRD chegou a ter um mandato, mas não seria suicida de ir na contramão do modelo consolidado que garantiu uma onda constante de crescimento econômico; a disputa agora era de quem iria gerir melhor o modelo, e não qual programa era melhor. E isso se torna completamente visível quando nasce uma cisão no PRD, surgindo, assim, o PRM (Partido Revolucionário Moderno), de Luis Abinader, que foi eleito e reeleito, consolidando a alternância de duas frentes que partem do mesmo denominador comum, ou seja, a esquerda tradicional foi completamente sodomizada.
Embora com todas as suas problemáticas, naturais de qualquer país, a República Dominicana tem um IDH sólido, e a estabilidade política e do crescimento econômico é visível, principalmente em contraste com seus mais próximos vizinhos. Mesmo após 24 anos da morte do mais famoso de seus caudilhos, suas jogadas ainda regem o destino da nação. E esta foi nossa breve jornada sobre a tão densa trama dos nossos vizinhos caribenhos.
por Ryan C. Mainart
Comentários
Postar um comentário