Rejeite a contemporaneidade, abrace a tradição

 No compasso dos últimos tempos, as novas tecnologias, especialmente a tão comentada IA, evoluem a largos passos - talvez não tão largos quanto o Vale do Silício queira que seus investidores creiam, mas isso é temática para outro texto. Dito isso, a saúde mental e a capacidade cognitiva da humanidade têm decaído cada vez mais, infelizmente, mostrando-se uma relação inversamente proporcional ao avanço tecnológico. Os dados são claros: a capacidade de interpretação textual, o raciocínio lógico e o aprendizado de novas habilidades têm caído brutalmente, enquanto os índices de ansiedade, depressão e distúrbios psicológicos batem recordes exorbitantes. A título de exemplo, uma pesquisa da Universidade da Flórida e do University College London, da Inglaterra, indicou que, nos EUA, o hábito da leitura por prazer caiu mais de 40% nos últimos 20 anos.


Antes de falarmos das LLMs - Large Language Models, os modelos dos principais assistentes de IA utilizados pelo usuário final -, vamos focalizar em alguns itens que se tornaram onipresentes no cotidiano humano do século XXI: os smartphones e as redes sociais. A ferramenta, como é concebida, não possui em si qualquer nocividade; todavia, a forma como a utilizamos, sim. As redes sociais, especialmente as focadas em conteúdo rápido e interação constante, são, inegavelmente, grandes males, com baixíssimos ou nulos benefícios. Se formos analisar friamente, os danos são inúmeros: telemetria (coleta de dados massiva), altíssima exposição, comparação, ansiedade, aumento da sensação de solidão, efeito manada e os inúmeros mecanismos psicológicos intencionais para o vício e a captura de sua atenção; estes que funcionam como grandes destruidores do funcionamento natural do cérebro humano, que não consegue lidar com tantos estímulos ao mesmo tempo e acaba por gerar dependência, danos brutais nas estruturas do funcionamento da dopamina e redução da capacidade de foco. E, nos últimos anos, isso se intensificou ainda mais com os vídeos curtos em feeds infinitos (doomscrolling) e foi exponenciado à enésima potência com os conteúdos vazios produzidos por IAs, que são os chamados brainrots - em tradução literal: "apodrecimento cerebral".


Ademais, o impacto social é incomensurável, inclusive na mentalidade atual dos extremismos e na constante encarnação de uma guerra maniqueísta tribal em quaisquer aspectos da vida, que se intensificaram pelo funcionamento algorítmico das plataformas ao lhe entregarem apenas aquilo que o usuário quer receber, privando-o de grande parte das visões contrárias às da "bolha" na qual ele se insere.


Quanto às já mencionadas IAs, é um cenário ainda muito incerto. Enquanto os CEOs das grandes companhias tentam vender que é possível chegar a uma Inteligência Artificial Geral (AGI) - propagada por uns como de dimensões quase cósmicas, e por outros como uma distopia à lá "O Exterminador do Futuro" -, outros dizem que, na verdade, a IA está perto de chegar aos seus limites e começará a se retroalimentar - pelo massivo conteúdo gerado por ela infestando a internet e, por conseguinte, suas bases de dados para o treinamento da própria - e estagnar em algum ponto. Independente de quem se prove certo num futuro pouco distante, fato é que a relação do fenômeno da interação humana com os assistentes de IA é algo completamente mensurável. Se antes tínhamos como casos isolados a fictossexualidade, como o japonês Akihiko Kondo, que se casou em 2018 com um holograma da personagem Hatsune Miku, hoje temos a devastação completa das capacidades racionais mínimas através da era dos "relacionamentos artificiais", em que milhares ou milhões de pessoas desenvolvem sentimentos por chatbots programados através de inteligências artificiais que simulam um diálogo humano, formando-se todo um mercado de aplicativos focados unicamente neste formato de chatbots. Ou seja, é notório que, seja por máquinas com um simulacro de humanidade ou por redes sociais que agem como caça-níqueis, a economia da atenção se tornou um parasita que infecta e destrói nossas mentes.


O cientista da computação Cal Newport publicou em 2019 uma obra essencial para o atual momento - que, ousando parafrasear o brilhante termo aqui cunhado anteriormente por Yeda Crusius, são tempos semimedievais -: trata-se de sua obra "Minimalismo digital: para uma vida profunda em um mundo superficial". Neste livro, Newport aborda como ter uma relação mais saudável com as redes sociais, e nos benefícios que adquirimos ao retomar o controle de nossas vidas digitais, algo crucial para voltarmos a ter uma relação natural com as máquinas, ou seja, usá-las como ferramentas para facilitar e amplificar o exercício das capacidades humanas e não se tornar uma gaiola de hamster na qual somos controlados pela máquina.


Mas, afinal, qual a postura que devemos adotar perante todo este cenário? O resgate da "tradição". Não estou sugerindo um retrocesso ao passado, e sim a maturação da relação com os avanços constantes. O principal resgate é o da mentalidade, da soberania do indivíduo humano e da preocupação com a nossa própria saúde mental. E há várias formas para isso, seja se desligando das redes sociais e usando a internet em sua forma mais pura - o vasto conhecimento descentralizado, os blogs pessoais sem todo o algoritmo predatório das mídias sociais -, assinando e lendo jornais e não as notícias mastigadas em meia dúzia de palavras chamativas. Além, obviamente, de cultivar o hábito da leitura, da reflexão e da contemplação da natureza, que nos instiga a entender os tão incríveis mistérios por detrás da criação. Como sugestão de reflexão ao leitor que até o final deste post chegou: antes de utilizar tecnologias que se tornaram tão triviais em nossa vida, pense se é algo tão inócuo quanto deduzimos e ao que estamos nos expondo ao utilizá-las.

por Ryan C. Mainart

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Referências e recomendações de leitura acerca do tema:


NEWPORT, Cal. Minimalismo Digital: Para uma vida profunda em um mundo superficial (Digital Minimalism: Choosing a Focused Life in a Noisy World). Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.


KURZWEIL, Ray. A singularidade está próxima: Quando os humanos transcendem a biologia (The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology). São Paulo: Iluminuras, 2005.


DEEPly concerning: o hábito da leitura por prazer nos EUA caiu 40%, aponta novo estudo (‘Deeply concerning’: reading for fun in the US has fallen by 40%, new study says). The Guardian, 20 ago. 2025. Disponível em:     clique aqui.


JENSEN Huang, da Nvidia, diz que acredita que "alcançamos a AGI" (Nvidia’s Jensen Huang Says He Thinks ‘We’ve Achieved AGI’). Forbes, 23 mar. 2026. Disponível em:     clique aqui.


ESTE homem casou-se com uma personagem fictícia. Ele gostaria que você o ouvisse (This Man Married a Fictional Character. He’d Like You to Hear Him Out). The New York Times, 24 abr. 2022. Disponível em:     clique aqui.


CHATBOTS de fantasia sexual estão vazando um fluxo constante de mensagens explícitas (Sex-Fantasy Chatbots Are Leaking a Constant Stream of Explicit Messages). Wired, 2024. Disponível em:     clique aqui.


MORTES ligadas a chatbots. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em:     clique aqui.

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