Uma breve história da luta brasileira contra a ineficiência fiscal

O Brasil, há tempos, vem sendo amordaçado pelo populismo, o que nos gera uma situação insalubre de duradouro "pão e circo", gastos estratosféricos e pajelança econômica em tempos de bons ventos. Mas sabemos que, quando a conta chega, quem dá o amargo remédio da recuperação fiscal, agindo como o adulto da sala, é aquele que vem como emissário de um rigor técnico e tem fibra para se sacrificar politicamente em prol de medidas que trarão melhoria na recuperação e no longo prazo. Como solene forma de honrar os obscurecidos pela impopularidade de seus feitos, venho aqui reiterar seus legados, que são parte dos respiros que nossa nação teve.

Após anos de hiperinflação desde os tempos do estatismo de Vargas e JK, amplificada de forma exacerbada no modelo burocrático e de obesidade estatal crescente dos militares, a inflação era um parasita que estava prestes a implodir a nação. E quem nos trouxe a recuperação deste período foi a brilhante e íntegra figura que representa o que Minas Gerais melhor teve a oferecer politicamente; refiro-me ao saudoso Itamar Augusto Cautiero Franco. De uma hombridade e integridade ímpares, o único que ouso comparar à sua índole é o excepcional Pedro Simon. Notório é que, sem a gestão de Itamar e seus ministros da Fazenda, que brilhantemente operaram no Plano Real, não teríamos um dos períodos mais prósperos economicamente da Sexta República. Sucedido pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso - o maior símbolo tucano que, como disse em outro texto meu, não era o "ultraliberal" que diziam, mas, sim, um social-democrata que se aliava ao mínimo de austeridade fiscal e a um liberalismo econômico sutil para que houvesse uma modernização e otimização da máquina pública. O que concretizou de forma excelente; minhas únicas críticas ao seu governo são a criação da reeleição e a fraqueza em criar um sucessor que impedisse a ascensão meteórica do petismo na década seguinte.

O segundo exemplo que trago é o de Michel Temer. Não tecerei nenhum juízo de valor à sua figura ou idoneidade; só dissertarei sobre os feitos de sua gestão de forma técnica, goste-se do que ele representa ou não. Fato é que Michel Temer rompeu com a base petista e estancou a sangria da crise do governo Dilma, que já vinha de irresponsabilidades começadas no primeiro mandato de Lula, com seus gastos excessivos e a tentativa de criar um Estado de Bem-Estar Social artificial em um país subdesenvolvido que acabara de sair de décadas de hiperinflação. A gestão de Temer impôs medidas básicas como o teto de gastos, o desaparelhamento ideológico de ministérios, cortes de gastos, reformas estruturais e um mínimo decente de liberalismo econômico que o país não via desde a década de 1990, e que garantiu os bons ares para o primeiro ano de governo de seu sucessor.

Por fim, outro exemplo de martírio político foi o da forte e determinada ex-governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, que ouso dizer ser um dos maiores quadros técnicos do PSDB; oxalá tivéssemos no Executivo federal alguém com tal calibre. Yeda, em seu mandato, lutou quase uma guerra civil contra sindicatos, parasitas da máquina e até aliados que a atacaram internamente, e saiu vencedora. Conseguiu o "sonho molhado" de qualquer economista em gestão pública: o déficit zero, ou seja, uma abertura para um superávit fiscal primário.

Concluímos um mesmo destino em quem luta por bons feitos: em todos os casos, perderam seu capital político. Fernando Henrique saiu rejeitado após seu segundo mandato, Temer terminou com pífios 7% de aprovação e Yeda, em sua candidatura à reeleição, obteve apenas 18% dos votos. Isso mostra que, assim que os primeiros sintomas de recuperação econômica aparecem, o eleitorado corre para os braços de qualquer um que volte com políticas imediatistas, com irresponsabilidade fiscal e o velho "pão e circo". Será possível mudar essa tendência? Só as páginas que escreveremos de nossa história terão a capacidade de nos dizer.

por Ryan Correia Mainart

Comentários

  1. Bom dia. Lendo agora este teu texto cumprimento pela excelência. Veio-me forte a reafirmação da importância dos autores que escrevem a história não apenas narrativa, descritiva, mas analítica, deixando registrada a verdade dos fatos. Agradeço demais a menção a nosso governo que foi, sim, um governo de Coragem para Fazer, coerente com os princípios que me levaram à política. Os tempos atuais, semi-medievais, estão necessitando de autores que não se deixam dominar por interesses nem se deixam substituir por máquinas. Tarefa hercúlea. Mas no compasso dos ciclos creio que as boas sementes plantadas no passado haverão de germinar. Estamos à espera de líderes para conduzir esse processo, à altura daqueles já citados no seu texto. Fico honrada pela menção ao período em que pude servir ao bem público. Abraço.

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    1. Boa noite, Yeda! Perdão pela demora. Fico imensamente honrado pelos tão gratificantes votos de reconhecimento. Agradeço imensamente às suas palavras e admiro ainda mais o teu legado. Também espero que, no futuro, germinem sementes que tragam como frutos líderes de tal calibre, mas tenho fé que gradualmente podemos melhorar estes tempos semi-medievais, como bem apontou. Novamente, reitero minha gratidão pelo teu comentário. Um grande abraço!

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